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Ritual e Representação: o Discurso Religioso da CCB (Congregação Cristã no Brasil)!

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Ritual e Representação: o Discurso Religioso da CCB (Congregação Cristã no Brasil)!

Mensagem por Administrador em Ter Mar 29, 2011 3:11 am



Por Manoel Luiz Gonçalves Corrêa

Dissertação apresentada ao Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas como requisito parcial para obtenção do Titula de Mestre em Lingüística. Campinas 1986 UNICAMP

R E S U M O

No culto da Congregação Cristã no Brasil, há duas manifestações discursivas principais: a dos fiéis (nos Testemunhos) e a do ancião (na pregação).
Este trabalho é, fundamentalmente, o estudo dessas manifestações - "Discurso do fiel em testemunho” e “Discurso do ancião”, as quais, em conjunto com todas as outras manifestações lingüísticas, constituem o discurso religioso da Congregação Cristã no Brasil.

Primeiramente são abordados aspectos históricos e doutrinários da CCB, ressaltando-se, de inicio, o papel desempenhado pela ritualização.
Segue-se então, três capítulos dessa ritualização: 1 – Do culto; 2 – Do discurso do fiel e 3 – Do discurso do ancião.

Em seguida é enfocado o aspecto da complementaridade das duas manifestações discursivas (a do fiel e a do ancião).
Finalmente, chega-se a três pontos fundamentais que caracterizam o discurso religioso da CCB: (a) a sacralização do mundano e a trivialização do divino como efeitos discursivos que decorrem da falta de mediação teológica;

(b) o caráter dialógico do discurso do fiel em testemunho e discurso do ancião, com seus respectivos efeitos de mediação; (c) o efeito de silenciamento produzido pela falas incessante no preechimento das pausas (no culto) e dos silêncios (nos discursos).

INTRODUÇÃO

1. UMA PRIMEIRA APROXIMAÇÃO

A evasão rural em busca de melhores condições de vida pode ser vista como um dos fatores que tem contribuído para aumentar a população urbana.

Constrói-se ou aluga-se o barraco sonhando-se com a futura casa popular, e esse estágio supostamente provisório torna-se a senha para a ascensão econômica e social. O tempo passa, e as mazelas da vida se repetem. O homem cansa.

As procissões e as romarias se acabaram. As imagens caolhas dos santos já não possuem a mesma força sob a fala "desses padres novos". Alguma fé persiste. O vizinho comenta sobre o sucesso financeiro de um irmão em Cristo.

O homem escuta. As coisas parecem estar sendo ditas de outra maneira.
É preciso orar e respeitar a vontade de Deus. Tudo – provem da onipotência e bondade divinas. Cabe a cada um aprimorar seus dons e contentar-se com o que recebe em troca..

O filho do pedreiro aposentado estudou e já é doutor, e continua fiel ao saber do pai e, quem sabe, ao medo impregnado já na memória infantil. Lamúria de cultos da infância sentirá ressurgir ao "cair em pecado" e, embora não se confesse, privar-se-á e premiará a igreja em paga da redenção. Provará a Deus que ainda tem fé.

Em pouco tempo a vida do migrante muda. Já na 'maneira de falar se reconhece o novo homem. Pregador e platéia comerciam expressões. As falas se assemelham. A saudação na "Paz de Deus" e a autenticação do código instituído.

Ao mesmo tempo, em outras partes da cidade ou mesmo longe dela, outros pregadores e outros fiéis se debatem no trânsito de palavras e idéias.

Poderá a nova linguagem modificar a própria história do crente? Que poderes caberão a ela? Devolvê-la-á a certeza do outro, perdida nas últimas tralhas que restaram da mudança? E a linguagem que ficou? Com quem ficou? Muitas dessas idéias (e dúvidas) já estavam presentes em nosso projeto de mestrado de 1981.

Elas começaram a surgir depois de uma visita casual a um bairro periférico de Campinas.
Era um domingo, e algumas pessoas dirigiam-se em grupos a sua igreja. Eram grupos bem caracterizados e seria impossível errar na previsão de sua direção.

Mulheres de cabelos longas, às vezes trançados, às vezes soltos, mas sempre em conjunção perfeita com vestidos de talhe recatado, de comprimento até o joelho e com as indefectíveis sandálias de couro de meio salto.

É claro que o tempo passaria, e as sandálias de plástico atingiriam tardiamente as gerações mais moças, estas também alinhadas segundo o modelo materno, portando invariavelmente uma bolsinha a tiracolo, onde – descobri mais tarde arregavam o véu, o hinário e a Bíblia. Os homens, de aparência séria, barbeados e com cabelos curtos, vestindo paletó e carregando-o no braço, seguiam a mesma direção, evitando gestos largos e ostentando à mão seu hinário e sua Bíblia de capas escuras.

Estava claro naquele momento que o grupo não se definia apenas pela direção que seguia. Estavam caracterizados por urna indumentária e um comportamento comuns que remetiam a uma marca social mais ampla, delimitando um espaço social próprio e destacando-os no conjunto da sociedade.

Acrescente-se ainda que já contávamos com algumas informações a respeito de seus padrões de socialização, que incluem um sistema de ajuda mútua entre os membros do grupo - até então denominados crentes, indistintarnente.

Esses fatos despertaram-nos o interesse pelo modo como esse grupo estaria definido lingüisticamente e pelas conseqüências advindas dessa definição. Basicamente essas serão nossas preocupações.

Nosso próximo passo será o de estabelecermos, nós também, um "código" prévio ao desenvolvimento deste trabalho. Para tanto, passemos a algumas observações sobre o pentecostalismo, em geral, e sobre a Congregação Cristã no Brasil, em particular.

2. UM PRIMEIRO RECORTE NO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO: O PENTECOSTALISMO

“Igrejas pentecostais são aquelas popularmente conhecidas como Igrejas de crentes”. "“Pentecostal” é um adjetivo que se refere ao “Pentecostes”, que, por sua vez, é o nome da “festa” católica celebrada 50 dias depois da Páscoa em comemoração a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos” (NDLP, la. edição).

Se tomarmos como fonte de informação a reportagem 110 avanço dos crentes", publicada pela Revista Veja (n9 683, de 07/10/81, p. 56), encontraremos uma referência também na mesma direção explicando que os pentecostais devem o seu nome ao dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo teria aparecido aos apóstolos na forma de línguas de fogo.

Quando vulgarmente se menciona o pentecostalismo, é comum caracterizá-lo como um conjunto de seitas fanáticas, cujos seguidores são aqueles inoportunos visitantes que levam horas no intuito de convencer as pessoas a aceitarem a sua religião como a verdadeira. Mas as opiniões que o pentecostalismo suscita são as mais variadas e até mesmo contraditórias.

Entre os católicos, e comum reconhecer-se que os crentes são assíduos leitores da Bíblia, fato que, no entanto, não os livra de serem marginalizados como fanáticos, nem por católicos, nem por outros protestantes. Por sua vez, fica mais clara nestes últimos a acusação de que os pentecostais são "legalistas", pois, segundo sua opinião, nem dirigentes, nem seguidores “possuem "conhecimento da verdade bíblica”.

É o que afirma o missionário presbiteriano William R. Read (l967), ao relatar sua experiência missionária no Brasil, na década de 1960. Este autor diz ainda: "Eles empregam algumas fórmulas estranhas sobre batismo, oração, dons espirituais e outras doutrinas essenciais.

Seu zelo é notável, mas falta-lhes orientação doutrinária sólida". E continua, utilizando-se agora das palavras dos próprios seguidores: "Afinal, dizem, o Espírito Santo colocará em nossa boca as palavras certas nos momentos certos. Não há necessidade de preparar-se, de estudar e de aprender. Foi por um excesso de preparo humano que outras igrejas erraram no passado (op.cit. p. 40).

Em conseqüência de sua marginalização pelas igrejas maiores e da estigmatização geral a que estão submetidos, fica para o leigo desatento a idéia de que há no Pentecostalismo um caráter estranho a toda fé cristã.
Passando agora para urna definição de caráter mais científico, vejamos a abordagem feita por Novaes (1980).

'Ao contrário do que um leigo poderia imaginar, a autora nos mostra que a especialidade do pentecostalismo reside: “ na maior ênfase em certos aspectos da doutrina cristã , a saber: a crença na atuação do Espírito Santo sobre os fiéis contemporâneos, a busca de santificação através do desprezo à sabedoria humana e aos valores do mundo e a espera da segunda vinda de Cristo, quando os crentes serão resgatados e os nao crentes condenados"Z (op.cit., p. 67).

“Essa especialidade é vista de maneira diferente pelo missionário presbiteriano William R”. Read (Opa cit., p. 10) e, segundo sua opinião, ela reside no fato de que “os pentecostais dedicam-se quase totalmente ao estabelecimento de igrejas”.

Qualquer 'vida' advinda para seus membros é devida ã redenção, que
se baseia na crença em Cristo, e nao em civilização, que tenha por base educação da igreja ou missionária. Eles não se sentem impelidos a 'civilizar' ou a apresentar uma imagem favorável dos Estados Unidos.

Essa suposta liberdade de ação dos pentecostais tem suscitado dos missionários americanos afirmações como esta, que o mesmo autor cita: "Alguns as denominaram como autêntica igreja indígena (contrapondo-se às igrejas-indigenizadas), observando que, tendo surgido poucas desavenças entre elas e os órgãos de auxílio externo, elas adaptaram se ao pas, de um modo surpreendente"´ (op. cit., p. 11).

A classificação de denominações diferentes (Congregação Cristã no Brasil, Assembléia de Deus, O Brasil para Cristo,etc.) como PENTECOSTAIS deve-se, segundo Novaes, a um "núcleo doutrinário comum". De acordo com esta autora, há no Brasil " ,pelo menos, uma centena de denominações.

Cada denominação possui seu histórico particular, é um movimento religioso particular e se organiza independentemente. As denominações têm, via de regra, uma organização que subordina as congregações às igrejas, as igrejas.

Às igrejas-mãe e estas aos ministérios. Porém, cada organização local tem autonomia para se organizar em termos de atuação religiosa e formação de lideres, e deve alcançar autonomiafinanceira (op. cit., p. 67).

Quanto ã relação entre o protestantismo tradicional e o pentecostalismo, e quanto à unidade deste último, esclareçamo-nos mais uma vez com Novaes: "enquanto movimento religioso iniciado nos Estados Unidos, no início do século XX, se desenvolveu fora do protestantismo tradicional que lhe deu origem e não resultou em uma única instituição que se encarregasse de promover sua unidade.

Há centenas de denominações pentecostais espalhadas pela América Latina e a liderança das milhares de igrejas e congregações que as compoem estão, via de regra, entregues a funcionários religiosos que não recebem educação religiosa formal.

Além disso, há o princípio da autonomia local de cada núcleo em termos financeiros organizacionais. Ora, se no interior do próprio catolicismo - religião oficial - apesar da qualificação homogênea do seu corpo eclesiástico, existem diversas sub-religiões que correspondem aos diferentes grupos que formam a massa de fiéis, o que dizer do “pentecostalismo" que nem ao menos conta com instrumentos e mecanismos que promovam sua unidade aparente? (op. cit., pp. 68-9).

Já não é tão recente, dentro das Igrejas Protestantes tradicionais - presbiteriana, batista, metodista, episcopal, congregacional, luterana - a discussão sobre o rápido crescimento das igrejas pentecostais. Exemplo disso é a citação feita por Read (op. clt., p. 217) do estudo de J. Meri e Davis, efetuado no Brasil, Argentina e Uruguai em 1942: “A Igreja Evangélica Cresce, provavelmente mais depressa no Brasil do que em qualquer outro pais do mundo".

No entanto, houve por parte dos missionários evangélicos uma falha na interpretação da palavra "Evangélica” aí empregada.

Os protestantes tradicionais entenderam-na como se referindo as igrejas evangélicas tradicionais, não se dando conta de que as estatísticas incluíam as igrejas pentecostais.
"O crescimento metodista, batista, presbiteriano tinha sido bom, mas isto também acontecia em outros países.

Somente Aliando as igrejas pentecostais às tradicionais, poder-se-ia verdadeiramente alegar que a Igreja Evangélica no Brasil' vinha a ser a igreja de mais rápido crescimento no mundo (ibid., comentando o erro de seus correligionários).

Segundo o bispo pentecostal Robert Mc Alister, fundador no Rio de Janeiro da Igreja Pentecostal da Nova Vida no ano de 1960, o “Pentecostalismo Moderno” de nosso século opõe-se aos "movimentos de renovação carismática de éculos passados.

Dentro do "Pentecostalismo Moderno" em nosso País, o mesmo autor classifica:
(a) o “Pentecostalismo clássico" – representado pelas primeiras igrejas pentecostais que se estabeleceram no Brasil, como a Assembléia de Deus e a Congregação Cristã no Brasil, e suas dissidentes como o "Brasil para Cristo" (fundada por um brasileiro, com raízes na Assembléia de Deus) e centenas de
outras igrejas pentecostais;

(b) o “Neopentecostalism”o no Brasil" caracterizado pelos movimentos de “Renovação” dentro das igrejas evangélicas tradicionais como a Batista, a Metodista e a Episcopal; e

(c) os "Católicos Pentecostais” - que "começando de várias raízes e em nível ministerial" (o autor cita vários padres destacando-se nesse momento),caracterizam, desde o início de 1969, o movimento de renovação carismática na Igreja Católica Romana no Brasil.

Portanto, de acordo com Mc Alister, temos no Brasil três linhas de Pentecostalismo: a clássica, a evangélica e a católica (1977, pp. 26-9).

Essa classificação vem de encontro a constatações mais recentes, veiculadas pela grande imprensa brasileira. Informações sobre o aspecto do crescimento pentecostal realmente dão conta de que "o sucesso alcançado pelo modelo de evangelização pentecostal é tão evidente que já começa a influenciar algumas igrejas batistas e presbiterianas - e mesmo a Igreja Católica.

Neste último caso, o modelo crente influencia sobretudo o Movimento de Renovação Carismática, surgido no começo da década de 60 na Universidade Católica de Notre Dame, nos Estados Unidos. Os 'carismáticos I, ou 'Pentecostais católicos' pregam 'a renovação do uso dos carismas do Espírito Santo'.

Ao menos por enquanto, a hierarquia católica não os condenou. Os carismáticos começam a atuar em Campinas, são Paulo, sob a liderança do jesuita Rarold Rahm. Essa influência do pentecostalismo sobre outras religiões é ainda incipiente. Mas configura mais um indicador da força de uma igreja que, somadas todas as seitas nela incluidas, só é menor que a católica - e promete continuar crescendo" (Revista Veja, n9 683, de 07/10/81, p. 64).

CONTINUA:


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Re: Ritual e Representação: o Discurso Religioso da CCB (Congregação Cristã no Brasil)!

Mensagem por Administrador em Ter Mar 29, 2011 3:14 am

3. UM SEGUNDO RECORTE NO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO: O "PENTECOSTALISMO CLÂSSICO" DA CONGREGAÇÃO CRISTÃ NO BRASIL


A delimitação do objeto de pesquisa em meio a tantas fontes de material foi o primeiro problema a enfrentarmos. Afinal, os "crentes” eram muitos e apenas pareciam iguais.
Daí a optarmos pelos pentecostalistas da Congregação Cristã no Brasil, houve apenas o trabalho de constatar que nela a evangelização, portanto o ato cujo material lingüístico nos interessava, é feita exclusivamente no contato dialogal ou dentro dos templos. Outros pentecostalistas fazem a evangelização nos mais diversos locais e por meio de diferentes canais, seja no templo, na conversa informal, nos logradouros públicos, pela comunicação impressa, pelo rádio ou TV.
Em nossa busca de material escrito sobre a Congregação Cristã no Brasil em livrarias evangélicas, uma balconista, cabelos em trança, denotando sua filiação pentecostal, alertou-nos sobre a dificuldade de se conseguir qualquer material, talvez não entendendo bem nosso interesse, concluiu: "Congregação Cristã? O senhar vai pirar!...”
Contrariamente ao que supunha nossa informante pareceu-nos mais fácil controlar as variáveis dos discursos na CCB, justamente por eles estarem circunscritos a um espaço melhor definido e, de certa forma, fechado.
Entre os fiéis, a explicação que se obtém sobre o nome da igreja é a seguinte: Congregação (= união) Cristã (= em Cristo) no Brasil (=porque há em outras partes do mundo).
Sua origem data de 1909, quando duas pessoas de ascendência italiana saíram de Chicago e rumaram para a Argentina, lugar que - acreditavam - o Senhor lhes havia indicado. A 08 de março de 1910, novamente acreditando ser indicação do Espírito Santo, chegaram a são Paulo. Conheceram, então, um imigrante italiano, radicado em Santo Antonio da Platina (Paraná). Logo de
pois, um dos missionários voltou à Argentina e o outro, Louis Francescon, dirigiu-se à Santo Antonio da Platina para visitar o novo conhecido. Nesse 1ugar e ainda em 1910 deu-se a origem dessa igreja no Brasil. (Os dados acima foram extraidos do trabalho de William R. Read (op.cit.), e pudemos observar uma convergência de informações orais colhidas nos próprios templos da Congregação Cristã no Brasil. Já os dados que se seguem baseiam -se exclusivamente no trabalho do missionário presbiteriano).
De volta a são Paulo, em junho do mesmo ano, Francescon hospedou-se no Brás - na época colônia italiana dentro de São Paulo - e veio a ter oportunidade de pregar em uma igreja presbiteriana existente no bairro. Sua pregação - feita em italiano gerou urna cisão naquela igreja. Os novos membros da Congregação cristã no Brasil acreditavam que o Senhor enviara Francescon à Igreja Presbiteriana para corrigir os erros cometidos e para espalhar a mensagem cristã.
Podemos observar, portanto, que, desde os primórdios da Congregação, o aspecto lingüístico desempenhou uma função primordial na auto-identificação do grupo.
Seria a imigração um dos fatores determinantes para o sólido estabelecimento dessa igreja no Brasil? Segundo Novaes, os aspectos normalmente relacionados à expansão do pentecostalismo têm sido “os processos de industrialização, migração e urbanização", ou seja, sua expansão tem sido relacionada a "um modelo de mudança social na América Latina”. A filiação religiosa constituiria neste contexto numa forma de substituir redes de contato
primário e apoio existente na “sociedade tradicional” e de se adaptarem à •sociedade moderna. Acrescenta ainda a autora que, mais recentemente, o pentecostalismo passou a ser relacionado com o capitalismo dominante. Sob este último ponto de vista, o pentecostalismo seria na expressão mais típica do capitalismo", o que pressuporia que lia prática de seus adeptos ll convergisse
upara a continuídade da dominação na sociedade .(op. cit., p. 68). Embora o debate entre os sociólogos seja dos mais interessantes, voltemos às informações gerais sobre a Congregação Cristã no Brasil.


Dados de 1981, publicados pela Revista Veja, já citada, informam-nos que "as mais importantes seitas pentecostais no Brasil são: Assembléia de Deus (2,5 milhões de fiéis), o Brasil para Cristo (1 milhão), Congregação Cristã no Brasil (900.000) e Igreja do Evangelho Quadrangular (5OO.OOO)" e que a mais antiga em nosso pais é a Congregação Cristã no Brasil. Nem todas as seitas pentecostais do pais estão catalogadas.
O mesmo numero da Revista nos dá um total de 37 (trinta e sete), mas se considerarmos o aumento diário de novas tendas nas grandes cidades, será difícil prever o número exato de seitas, uma vez que há numerosas cisões nas seitas já estabelecidas.
A Congregação Cristã no Brasil, segundo informações colhidas na igreja central em são Paulo} além de não depender de fundos provenientes do exterior, não se mantém financeiramente por meio de dízimo, comum em outras denominações. As doaçôes são voluntárias e destinadas "à construção de prédios para acomodar a irmandade, para financiar viagens e despesas de manutenção” (palavras de um ancião). Os funcionários não são remunerados, os anciãos não recebem nada por suas pregações e as ofertas são anônimas. O fiel entrega o dinheiro dobrado para a pessoa responsável e indica, nessa hora, a finalidade para a qual deverá ser destinado. O responsável separa as quantias segundo a finalidade, colocando em bolsos diferentes. Essas quantias são entregues por ocasião dos cultos.
Todas as informações acima conferem com a descrição feita por Read, referente à Congregação na década de 1960. Quanto a ajuda externa, este autor acrescenta: "Essa Igreja nova jamais recebeu auxílio financeiro dos Estados Unidos. Pelo contrário, prestou auxílio a uma igreja irmã em Chicago, Illinois, fazendo doação de cerca de 25OOO dólares" (op. cit., p. 36).
No que se refere ao crescimento da Congregação, um ancião nos informou como se dá o estabelecimento de um novo ponto de encontro. Um fiel muda-se para um bairro distante, onde não há templo. Como ficaria difícil a locomoção para freqtientar o culto, então esse fiel convida pessoas vizinhas para reunirem-se em sua casa a fim de orarem, cantarem hinos. Estabelecido um
grupo regular de freqüentadores, comunica-se ao Ministério o numero aproximado de pessoas e o lugar em que se reúnem, tornando-se, então, reconhecida a nova igreja. Com o aumento de fiéis, aluga-se uma casa ou inicia-se a construção de um novo templo I construção essa paga semanalmente pela contribuição espontânea da irmandade. Os trabalhos braçais são feitos em finais de semana e em feriados.
Quanto a sua organização administrativa, comecemos por esclarecer a composição do que se chama Ministério.
Ministério é o conjunto de pessoas que se reúnem para dar, as diretrizes a serem seguidas pela Congregação Cristã no Brasil. Essas pessoas ocupam posição de direção em suas igrejas desempenhando as funções ,de ancião, cooperador ou diácono, vistos todos os três como presbíteros (responsáveis diretos pela comunidade e, ao mesmo tempo, chefes da comunidade). A exigência fundamental para galgar esses postos é, segundo os seguidores,a adequação aos parâmetros de boa conduta estabelecidos pela doutrina.

ANCIÃO: e a função mais elevada. Corresponderia ao pastor das igrejas protestantes tradicionais. Segundo declaração colhida na igreja central de são Paulo, para tornar-se ancião é preciso que o fiel (sempre do Sexo masculino) tenha boa conduta e experiência, maturidade, possua o dom da palavra e tenha conhecimento da Palavra (da Bíblia). O Ministério se reúne e esse fiel
participa da reunião de oração, sem saber que está sendo avaliado. "Se o Espírito Santo se manifestar, ele é reconhecido como ancião; se não for reconhecido, o fiel não fica nem sabendo" explicou-nos o ancião entrevistado. Cabe ao ancião presidir o culto, pregar a Palavra de Deus, fazer unção, ministrar o sacramento do batismo e da santa ceia (comunhão). Devem também vigiar o rebanho, tentando impedir a entrada de elemento que possa vir a ser um agente perturbador qualquer.

COOPERADOR: é o nome da segunda função mais elevada. Em igrejas novas pode ter sob sua responsabilidade uma comunidade de fiéis. Na ausência do ancião pode também substituí-lo, com exceção de duas funções especificas do ancião: a de ministrar o batismo e a santa ceia. Este ministério se divide em dois grupos: o de “Cooperador do oficio ministerial” responsável pela cooperação nos ensinamentos e presidência de cultos oficiais e de jovens em uma determinada localidade (desde que não haja um Cooperador de Jovens e menores responsável por essa localidade), não podendo realizar batismos. E o de “Cooperadores de Jovens e Menores” responsável de atender as reuniões de jovens e menores de sua comum congregação.

DIÂCONO: é a terceira função mais elevada. É menos comum ao diácono as atividades internas, como presidir cultos, pregar a Palavra, embora possa desempenhá-las também. O especifico de sua função é o trabalho com a irmandade, a sua penetração junto a ela, suas visitas aos fiéis doentes e a unção dos mesmos com óleo santo. O trabalho assistencial dos diáconos é muito intenso, havendo mesmo um Fundo dos Diáconos, criado pela doação espontânea dos fiéis, que é distribuído entre os membros que estejam em real necessidade.

IRMÃS DA OBRA DA PIEDADE: ministério exclusivamente composto por mulheres, casadas, que atuam junto aos diáconos em atendimento assistencial e espiritual as famílias necessitadas e pessoas enfermas. Diferente dos diáconos, elas não podem pregar nas congregações e nem realizar a unção de enfermos.

MUSICO: membro do sexo masculino habilitado a tocar nos cultos oficiais.

ORGANISTA: membro do sexo feminimo habilitada a tocar nos cultos oficiais.

ENCARREGADO DE ORQUESTRA: músico oficializado, designado para coordenar o ensino musical aos interessados e organizar ensaios musicais da Orquestra da Congregação.

EXAMINADORA: são organistas mulheres, oficializadas, designadas para avaliar outras organistas aprendizes no processo de oficialização.

AUXILIAR DE JOVENS E MENORES: são jovens, homens e mulheres solteiros, designados para preparar e organizar os recitativos das reuniões de jovens e menores, individuais ou em grupo, auxiliam o cooperador de jovens nas reuniões.

ADMINISTRADORES: ministério material, constituído por Presidente, Tesoureiro, Secretário, Auxiliares da Administração, Conselho Fiscal e Conselho Fiscal Suplente. Os administradores são eleitos a cada três anos e o Conselho Fiscal anualmente, durante a Assembléia Geral Ordinaria. É permitida a recondução ao cargo.

A hierarquia aqui descrita tem sentido apenas para o observador, uma vez que, do ponto de vista doutrinário, ela é atenuada pela crença nos dons. Segundo a doutrina, cada um dos fiéis desempenha uma função e deve fazê-lo de acordo com os dons recebidos de Deus.
Read, ao descrever as normas administrativas da Congregação Cristã no Brasil, fornece-nos uma idéia mais clara do funcionamento dessa igreja: Cada região urbana estabelece “... comissões de nove homens, nos lugares em que haja um número suficiente de membros, funcionários e construções de igrejas para gerirem e administrarem eficientemente. Isso parece favorecer procedimentos administrativos suficientemente flexíveis em relação ao crescimento da Igreja”.
"Cada comissão de nove homens é composta de anciãos, que já possuem muitos anos de experiência no ministério e na administração da Congregação. Na reunião anual, que se realiza na Igreja-Mãe, seleciona-se, entre os membros da Comissão, um presidente, juntamente com um secretário e um tesoureiro (...). Cada comissão encarrega-se de toda a administração das igrejas sob sua jurisdição, incluindo finanças, construções e ministério pasto
ral não-remunerado, com exceção da escolha e ordenação de novos anciãos, o que se processa na Assembléia Anual".
"Todos os anos, na época da Páscoa, os anciãos, cooperadores, diáconos e o maior número possível de membros vêm de lugares diversos e distantes para a Assembléia Anual da Igreja-Mãe.
Esse é o ponto alto do ano da Igreja, para todos uma época de renovação e encorajamento espiritual, pois toda a igreja reúne-se para rever o ano, que passou, e planejar o seguinte".
“É durante essa reunião que a Igreja espera a intervenção do Espírito Santo para ver quais os que serão designados como anciãos cooperadores e diáconos para aquele ano" (op. cit. ,pp. 37-Cool .
Portanto, todos os anciãos e demais funcionários assumem as suas funções de acordo com o que acreditam ser "a revelação do Espírito Santo ã Igreja". Dessa forma a questão da hierarquia passa para outro plano, o divino, resultando em afirmações como a de que: “não há hierarquia na congregação" (Read, op. Cito p. 381). No plano humano, essa questão toma um caráter moral significa o respeito e o reconhecimento aos seguidores de reconhecida boa conduta. E o que se pode depreender de outra afirmação do próprio Read quando reconhece que há certos privilégios na Congregação, pois “cercam-se de respeito os anciãos/que estão a serviço há mais tempo" (ibid.). A um dos mais antigos cabe, inclusive, a presidência da assembléia anual.
Quanto à comunicação entre as igrejas da Congregação, ela se dá de uma maneira muito eficaz. As visitas a outras irmandades são freqüentes e há, como dissemos, uma contribuição em dinheiro específica para financiar as viagens dos anciãos, o viajante comum também não correrá o risco de não localizar a Congregação local, pois cada fiel conta com um manual chamado Relatório anual, sua função é justamente a de permitir a fácil e rápida localização de cada igreja da Congregação Cristã em todo o pais.
Esse manual contém a relação das cidades em ordem alfabética com os endereços das casas e salas de oração oficializadas da Congregação Cristã no Brasil, trazendo os nomes dos anciãos, cooperadores ou diáconos responsáveis, e constando ainda código de endereçamento postal e horário dos cultos.
Convém observar que, apesar da tentativa de organização formal rígida desse manual de endereços, escapa um critério de importância que norteia essa organização. Por exemplo, na edição de 1980 os estados estão alinhados em ordem alfabética e, salvo o do Amazonas e Maranhão,cujas capitais encabeçam suas listas, somente São Paulo e Rio de Janeiro começam por suas capitais, seguidas dos "arredores das capitais e interior. Esse sub-critério mostra portanto, que o interesse dos congregados se dirige aos grandes centros.
No caso de são Paulo (Capital) fica claro que o maior número de fiéis impõe a preferência na ordem, pois inclusive abre o manual. Segundo estatísticas de 1979, publicadas no próprio manual, o numero de templos da Grande são Paulo (362) 50 era sobrepujado pelo número de templos nos estados (incluindo capital e interior) de Minas Gerais (670) e Paraná (1.012), além do próprio interior paulista (com 1.552). A primeira vista, parece ser um dado importante na explicação da grande concentração de templos na Estado do Paraná, o fato de que a Congregação Cristã se instalou pela primeira vez naquele estado, sendo, em 1979, o segundo em numero de casas de oração - o primeiro era são Paulo.
Ao contrário da facilidade de se obter a Nomenclatura de endereço os dirigentes da igreja reservam-se o direito de não divulgar certos princípios doutrinários, ao menos em situação de entrevista. Ao perguntarmos em que consistia a Santa Ceia na Congregação Cristã no Brasil, obtivemos a seguinte resposta de um ancião: "Evangelho de são Mateus, Capitulo 26 - última páscoa
e primeira santa ceia". Evidentemente, a interpretação dada a esse capítulo pela Congregação era o que nos interessava.
São muitas as situações em que os congregados se escudam na Bíblia. Um caso especial, não relacionado diretamente com o que está nas Escrituras,é o do Hinário. A preocupação com o hinário é muito grande, pois, segundo informações obtidas nos templos, ele 50 pode ser vendido a pessoas batizadas. A justificativa para essa atitude é a da fuga de charlatães, que roubam os hinos para empregar em outras denominações ou mesmo para criar
suas próprias. As igrejas pentecostais utiliza-se de vários hinários que podem ser adquiridos por quaisquer pessoas. Segundo Read, há limais de vinte diferentes tipos de hinários pentecostais, em Português" (op. cit., p. 172). No entanto, aquele utilizado pela Congregação Cristã no Brasil "Hinos de Louvores e Súplicas a Deus é de uso exclusivo dessa denominação (op.ctt.., p. 23). Interessante notar que essa exclusividade é antiga. Segundo o mesmo autor, o primeiro hinário da Congregação era em italiano. Na sua terceira edição, datada de 1935, uma parte dos hinos aparecia em italiano, outra parte em português. Somente a partir da quarta edição, impressa em 1943 r passou-se a empregar o português. Há hinos especiais para infância e juventude e também hinos especiais para abertura, para batismo, santa ceia e ofício fúnebre. Ainda segundo Read, em grande parte a música pertence a canções evangélicas cantadas nos Estados Unidos e as letras são traduções, mas salientando a mensagem, missão e práticas da Congregação (op.cit., p. 24).
Dada a dificuldade de acesso ao hinário, não nos foi possível analisá-lo
Depois desta seleção de informações preliminares, passaremos
a uma rápida descrição do corpus.


4. A CONSTITUIÇÃO DO CORPUS

O contato com um ancião da CCB era indispensável para saber dos locais, horários e formas de funcionamento dos cultos.
Nesse primeiro contato, em que não faltaram apelos ã conversão, tomamos ciência da possibilidade de gravarmos as falas sem problemas de sanções por parte dos membros ou da organização da igreja, obtendo, inclusive, o manual Nomenclatura de endereços e informações estatística como forma de facilitar a localização dos templos e o horário dos cultos.
Embora sabendo da possibilidade de gravarmos as falas em aberto, optamos por uma forma menos ostensiva. Segundo os critérios de pesquisa de campo em sociolingüística os registros mais informais são conseguidas em função de diversos fatores, cmo o envolvimento do informante com o assunto tratado, a discrição do pesquisador no uso de aparelhos de registro e a própria interação informante/pesquisador. t óbvio que os informantes, no caso dos cultos, estão muito envolvidos com o assunto tratado, mas não ficava resolvido o problema da intromissão de um estranho, de gravador em punho, num momento que! para a irmandade, era de ligação espiritual com a divindade.
Optamos então, pela gravação das falas de urna forma em que o gravador não aparecesse ~ Restava somente a variável "pesquisador", a nosso ver a menos problemática, pois desprovido desse caráter, marcado pelo gravador, a própria situação nos enquadraria como um visitante,e, portanto, como um fiel em potencial.
As gravações foram feitas no período de janeiro de 1981 a março de 1982 , num total de aproximadamente cinco horas de gravação.
Porém registradas tanto as falas dos anciãos como as falas dos fiéis em testemunho, pois desde logo as duas se mostraram em relação de complementaridade.
Houve uma série de dificuldades no trabalho de registro, com muitas fitas ficando prejudicadas, havendo partes inaudíveis em meio às falas. Esse problema se deveu a várias razões, como a deficiência de qualidade de som em alguns templos, as modulações exageradas dos anciãos ao aumentar ou diminuir o volume de voz e o constante abaixamento do volume de voz dos fiéis em testemunho. Em muitos cultos; não foi possível ouvir os testemunhos dos fiéis, que falavam de cabeça baixa, muito rapidamente e num volume de voz impossível de se ouvir mesmo em presença, quanto mais de serem detectados em gravação, onde os elementos contextuais, como por exemplo, gestos e expressões faciais, estão ausentes.
Dessa forma, foram gravadas e transcritas as falas de dez cultos de nove diferentes templos situados em bairros da cidade de Campinas. Os templos visitados localizam-se nos seguintes bairros: Bonfim (considerado como o templo do centro da cidade), Parque Industrial, Taquaral, Jardim Carlos Gomes, Vila Boa Vista, Jardim são Vicente! Parque Brasília, Vila Esmeraldina e Jardim Aurélia. Das gravações feitas constarão como material para análise dez falas de anciãos e vinte e nove falas de fiéis em testemunho.
Diante da concepção de linguagem subjacente a este trabalho e do método de análise, constarão como elementos constitutivos do corpus dados referentes a situação, tais como, gestos, expressões e elementos do ritual a serem descritos e considerados juntamente com as falas gravadas.
Um último fator quanto à constituição do corpus é a localização dos templos. Não é nossa intenção fazer uma análise redutora que encare a atuação da CCB do ponto de vista da dicotomia centro/periferia, pois pudemos observar a grande movimentação de fiéis pelos templos, caracterizada lingüisticamente pelo envia de saudações de uma congregação a outra. No entanto, apenas
como mais um dado a ser considerado, do ponto de vista geográfico, cinco dos templos visitados localizam-se em bairros próximos ao centro. Os demais estão localizados em pontos distantes do centro, caracterizando, assim, periferia geográfica. Do ponto de vista sócio-econômico, apenas quatro dentre os cinco mais centrais podem ser classificados como bairros não-periféricos, os restantes caracterizam-se como periferia social.


NOTA: TEXTO EM AZUL NÃO CONSTA NO TRABALHO ORIGINAL, ACRÉSCIMO MEU.

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Re: Ritual e Representação: o Discurso Religioso da CCB (Congregação Cristã no Brasil)!

Mensagem por Administrador em Ter Mar 29, 2011 3:16 am

A RITUALIZAÇÃO DO CULTO

1. O CENÃRIO


O culto na CCB é um culto ao Espírito Santo. :t: um chamamento a essa entidade fato próprio às denominações pentecostais, que acreditam na atuação do Espirito Santo sobre os fiéis em "comunhão com Deus", isto é, em ligação com a divindade (Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo) .
Culto, portanto, é a cerimônia em que, pela reverência a divindade, o fiel recebe os benefícios de sua presença em espírito.
Para que essa presença Se concretize é necessário que o culto institua certas partes e as ordene, isto é, siga um ritual.
Além de servir como padronização e ponto de referência comum na auto-identificação do grupo, o ritual tem como função imediata a aproximação do homem a Deus e, para tanto, constrói situações que levam os fiéis a se desvincularem dos padrões comuns de contato social para um contato social organizado em direção à divindade.
Note-se que a aprendizagem do ritual sempre precede qualquer ato do fiel. É preciso que o novo convertido tome ciência de como se aproximar da divindade. Neste sentido, as pessoas são convertidas, em primeira instância, para freqüentarem o culto e aprenderem o ritual que, uma vez dominado, vai habilitar o fiel a receber a presença divina.
Ligado ao ritual propriamente dito, há ainda um acontecimento social (também padronizado) que precede o culto e que mere ce ser descrito. Um dos anciãos, em seu discurso, reconhece sua importância:

"É muito claro que nos devemos congregar para encontrar os nossos amigos, tratar dos nossos negócios." (Igreja de Vila Boa Vista, 22/02/82)

Os fiéis chegam, em geral, em grupos familiares ou de vizinhança. Alguns de carro, outros a pé, outros ainda depois de tomarem dois ônibus para visitar a irmandade distante. (irmandade é sempre tomada no sentido do núcleo de irmãos que se reúne em um determinado templo, entendida sempre em presença e especificada como a irmandade do bairro tal.)
Conforme vão encontrando seus pares 1 num cumprimento entre fervoroso e tímido, vão descrevendo com a cabeça uma fugaz diagonal de cima para baixo, a que acrescentam, entre meio sorriso, a - expressão:
“A paz de Deus".

Imediatamente o outro responde: "Amém!”

As famílias se dividem à entrada do templo. Passam pelo irmão da “porta" (ou "irmão porteiro") r repetindo a saudação. Nesse momento e da maneira mais discreta possível podem entregar sua contribuição espontânea para a pessoa responsável, que pode ser o porteiro ou um diácono, mas de qualquer forma deve ser uma pessoa conhecida e de confiança.
Caso tenham feito algum voto, como por exemplo, o de doar o primeiro salário de um novo trabalho, entrega também a importância, "pagando" assim parte dos votos, pois a outra parte constará em dar o testemunho do benefício recebido.
Tomam seus lugares em bancos de madeira, providos de genuflexórios; homens de um lado, mulheres de outro (estas sempre do lado em que estiver a casa do zelador).
O interior do templo, a exemplo da parte externa (pintada de cinza ou azul e branco), e claro (com paredes brancas) e bem iluminado, com vidros e duas portas laterais. O tamanho é variável, e a maior sofisticação (também nem sempre presente) e o sistema de som, com auto-falantes, distribuídos nas pareàes laterais, de forma a atingir todos os pontos do templo.
Até ai, as mães, cobertas com véu (se batizadas), podem atropelar seus filhos impedindo-os de se mexerem nos bancos. Meninas cochicham e comentam, de soslaio, sobre coisas e pessoas, adotando sempre um ar de seriedade. Os homens se cumprimentam e podem perguntar do outro "irmãol1 que não veio ao culto. Os meninos imitam-nos. No todo, porém, respira-se um ar de compenetração e respeito.
Como se vê, há uma adequação do comportamento a situação, encarada com naturalidade pelos fiéis que, embora se vangloriem da ausência de idolatria, convivem com fetiches naquele espaço. A frente, na parede, uma inscrição geralmente em azul: "EM NOME DO SENHOR JESUS”.
Lembramos aqui o que nos diz Crato {l982, p.12j a respeito das inscrições gráficas primitivas ao estudar as remotas origens do grafismo linear: "A fala é (então) a forma de coordenação dos ritos e dos hábitos comuns que são mantidos pela autoridade religioso-mitica do chefe. Mas nos ritos, nos sacrifícios, nas cerimônias de iniciação dos jovens, nos preparativos bélicos,as inscrições gráficas primitivas começam a acompanhar a fala “são inscrições que se destinam a perpetuar na memória coletiva a expressão oral e a expressão oral é também o próprio ato místico".
- Em nosso caso, em que não se trata da origem da escrita, mas de um seu uso, não podemos dizer que o dístico: "EM NOME DO SENHOR JESUS" perpetua (no sentido de registrar para a posteridade) o que está na Bíblia, mas sim que permite a duração do dizer. Com a inscrição, a memória coletiva reabsorve a. cada culto o sentido de Deus estabelecido pela doutrina, ou seja, tudo é feito, Alcançado ou perdido, "em nome do Senhor Jesus”.
Esse sentido provindo da doutrina é recuperado na inscrição, que adquire, no ,templo, o caráter sagrado de sua fonte, a Bíblia, enquanto Palavra de Deus. Essa é, finalmente, a característica do fetiche.
Dessa forma, a inscrição compõe com os vários elementos do ritual - as falas e os atos instituídos por elas, os utensílios e a própria maneira de vestir dos fiéis - o universo místico próprio adoração da divindade que, no caso pentecostal, não é Contemplação, mas uma adoração ativa, no sentido de que 0s fiéis interpelam a divindade para entrarem na sua posse, isto é, para tê-la consigo.
Também o mobiliário cria e adquire traços da situação religiosa, mesmo nos templos mais pobres.
Nos templos mais ricos - as diferenças existem em função de época de instalação, do nível sócio-econômico e número de fiéis existentes - um microfone em cada um dos lados desafia os fiéis para a hora do testemunho. Dificilmente se encontra um templo sem nenhum microfone.
A parte de honra - os bancos dianteiros - está reservada para a “orquestra”, cujo tamanho e variedade de instrumentos dependem também das possibilidades econômicas e número de fiéis. Em geral é composta por instrumentos de sopro, dispondo as vezes de suportes para partitura encaixados nos bancos, mas pode também contar com órgão (presente em apenas três dos templos visitados) e violino (presente em um único templo) .
Ao entrarem, algumas pessoas ajoelham-se para orar, outras preferem sentar-se, enquanto aguardam.
Bancos cheios, o templo vai se inflando de pessoas e suspiros. o ancião toma seu lugar. Ele (ou um cooperador ou diácono) vai presidir o culto até o final ou cederá seu lugar na hora do Recebimento da Palavra, após os Avisos, a um diácono, a um cooperador
ou a um ancião visitante, que, sentados na fila da frente, esperarao receber do Espírito Santo a Palavra de Deus para a pregação.
Seguem-se, então, as partes do culto. A divisão foi feita levando-se em conta a interferência do ancião, o qual, por motivo de simplificação, será tomado como presidente do culto.


2. ORDENAÇÃO DAS PARTES DO CULTO


2.1. Saudação inicial

O ancião saúda a irmandade com expressões como:

"Deus seja louvado”

Ao que a irmandade responde cadenciadamente:

"Amém!"

Segue-se um burburinho de “Glória” e "Glória a Deus”, "Senhor!, num crescendo em número e em intensidade, cada vez mais carregado de modulações lamentosas, lideradas pelas vozes femininas e intercaladas, de tempos em tempos, com graves chamamentos “Senhor”, "Glória, Senhor:", são os homens, pronunciando as palavras com vibrato e realçando a vogal tônica por meio de alongamento e simultâneo abaixamento da tom.
Todos os atos de glorificação, assim como todas as expressões verbais enunciadas durante o culto, são atribuídos ao poder divino atuando sobre os fiéis:

" devemos estar apercebidos para fazermos a vontade de Deus. Ou um canto, que nos chama, ou numa oração ou também para glorificar Seu santo e bendito nome."(Ancião, Bonfim, 13/06/81)

O ancião contribui também nos chamamentos, abrindo o seu papel de animador do culto. Esse papel, no entanto, não deve ser confundido, pois a animação do culto tem um alvo certo (a suscetibilidade dos fiéis) e uma direção (a ligação do fiel com a divindade).
Além de animador, ele detém um poder deliberativo, prolongando ou reduzindo a duração das partes do culto, que, no total, não deve durar mais que 01h30min, conforme determinação do Ministério.


2.2. Chamada de um hino

Em geral os hinos separam as partes do culto. Sua escolha segue também um ritual. O ancião propõe:

"Chamemos um hino.”

Um dos fiéis, seguindo as normas de chamamento de hino, pronuncia numeral por numeral, formando o número que o hino recebe no hinário.
Essas normas são claramente explicitadas pelos anciãos nos cultos; não em todos f evidentemente, mas pudemos registrá-las detalhadamente em um deles:

"E também, quando formos chamar os hinos, nós devemos chamar os hinos de pé, ... "

"Então pronuncia bem, hino: um por um, né? Se tiver algum problema, então falar este hino tem: UM-ZERO-ZERO. ...Às vezes o do lado não entendeu direito. Tem: UM-SETE-SETE, né? (.. ) Então, enquanto o do lado não entende, é bom que o irmão fique de pé, porque o irmão, 'tanto de pé, a irmã, 'tanto de pé, já no, já no ficar de pé, ela já presta atenção. Então ele olha na boca do irmão ------sabe no pronunciar as palavras, ela ajuda, ajuda quem tá lhe seguindo a entender se e ZERO ou SETE, não é ?( ••• ) E quando for algum hino que tem o número SEIS, devemos dizer não SEIS, mas MEIA Dúzia, porque o SEIS confunde-se com o TREIS, não é ?" (Bonfim,13/06//81)

Em seguida, os músicos tocam uma breve introdução a que os fiéis seguem cantando.
Interessante notar as duas dimensões presentes nas normas de chamamento: há uma dimensão prática, no sentido de facilitar a localização no hinário, mas há também a dimensão ritualística propriamente dita. O número tal, pronunciado em condições apropriadas, introduz o próprio ritual (se o hino for de abertura), institui uma louvação (hino de oração), forja a comunhão com Deus (hino de comunhão) e até prevalece sobre o tempo, seguindo os mortos (hino de ofício fúnebre). Substituir um possível hino por um possível numero é fazer esse número funcionar como nome próprio, "chamar" esse nome/número em determinado momento do culto e de acordo com um procedimento pré-estabelecido - estar de pé, pronunciar bem, numeral por numeral, os outros fiéis atentarem para os movimentos da boca na hora do chamamento - resulta num efeito ritualístico próprio. Ao pronunciá-lo, o fiel faz irromper determinado ato coletivo (abertura,louvação, etc.).
Mas não só isso. Nesses atos, quaisquer que sejam eles, a função mais importante e o chamamento da divindade. A exemplo do que dissemos a respeito da adoração ativa própria a este culto (cf. p. 33), a entoação de um hino não e uma louvação pura e slmples, mas um chamamento, o que marca também seu caráter de ação.
Há, portanto, uma estreita relação entre a chamada do hino pela enunciação de um numero e o chamamento - invocação - da divindade. O hino, acompanhado sempre pelos instrumentos de sopro, permanece incompreensível para o ouvinte leigo, dada a altura em
que são tocados aqueles instrumentos. Pelo mesmo motivo, os fiéis podem soltar a voz até o limite. O efeito, portanto, é o de total liberação da voz, o que vai ter influência na entrega total dos fiéis durante o culto e vai resultar na esperada ligação com a divindade. É mais um caminho para a chamada “comunhão com Deus".
Há também, certamente, o efeito produzido pelo que é dito nos hinos (pela letra), mas em termos do ritual, parece-nos que a importância maior está na criação de um clima propicio a liberação das “vozes interiores” que, uma vez rompida a barreira, vão explodir em transe em algum momento do culto, provavelmente durante e depois do sermão.
Portanto, entoar um hino aumenta o envolvimento do fiel, aproximando-o da divindade. A própria chamada do hino deve-se a essa aproximação, ou seja, o fiel o chama em função do que acredirta ser o desejo divino (cf.pp34-5). Poderíamos mesmo dizer que a
chamada do hino e a invocação da divindade, através dele, constituem um único ato. Invocar a Deus por meio de um número pode significar a materialização de entidades divinas para os fiéis.
Podemos, ainda, levantar mais um importante componente no complexo processo do ato da "chamada do hino e da invocação da divindade", levado a efeito todo ele pela função conativa ou, nos termos de Reboul, pela função incitativa da linguagem.
Seu efeito prático - a simples chamada do hino – reproduz aparentemente apenas a normatividade do ritual, fato que lhe dá a autenticidade pelo que e ""familiar, conhecido. No entanto, segunda Reboul, a incitação que determinado enunciado produz “não aparece claramente no que ele diz. Acontece mesmo que ele seja tanto mais eficaz, quanto menos claro l1 (1980 1 p.lll). Assim, as dimensões (prática e rítualistica) podem ser vistas nâo só na sua função mágica de invocação da divindade. Há também nesse ato incitativo uma forte função social - a incitação voltada para a
própria irmandade - no sentido de que os próprios fiéis e que de vem incorporar a suposta presença divina. A "chamada" retorna, pois, como interpelação direta (à maneira de uma sala de aula), traduzindo-se como: “E você? Está presente e pronto a receber a presença divina ?". Desse modo na aparente racionalidade (chamada do hino e invocação da divindade, previstas pelo ritual) esconde ela mesma um certo sagrado, que não se pode transgredir verbalmente (calando-se, por exemplo, na hora do hino) sem se cometer umna blasfêmia ll (op. cit., p.llS). Isto pode ser observado na
Preocupação constante entre os fiéis de dividirem o hinário com o vizinho de banco quando este não o possui (fato que ocorreu conosco durante todas as gravações), sendo esta uma maneira de evitar a transgressão o número de hinos chamados pode variar, somando em alguns cultos até três seguidos, mas sendo esse numero sempre determinado pelo ancião, que reitera, assim, o seu papel de animador do culto e seu poder de deliberação.

Terminado(s) o(s) hino(s) os fiéis voltam ao burburinho anterior: É o


2.3 Momento da oração

Em que os fiéis colocam em voz alta suas preces, seus pedidos, clamando pela benevolência divina.
Em determinado momento, e novamente acreditando ser o desejo divino, um fiel qualquer vai intensificando o volume de voz durante até se destacar dos demais, é quando suplica as bênçãos do Senhor, agradece pela Sua bondade e, em certos casos, pede a proteção divina para as autoridades constituídas. Há, no entanto, todo o tempo, manifestação geral e inflamada.
O momento da oração está ligado ao final da interpretação do hino e sua abertura se dá pela interferência do ancião, que se utiliza de expressões semelhantes a esta:

“Senhor concede o momento da oração." (Jardím Carlos Gomes, 18/02/82)

Ao que se segue a exaltação conjunta e individual, já descritas.

A critério do ancião pode seguir-se, então, outro hino, que, nesse caso, será o elo de ligação com a parte seguinte, precedida, como em todos os momentos de espera, pelos chamamentos a divindade, agora mais esparsos e menos inflamadamente.


2.4. Testemunhos

Com a expressão:

"O Senhor concede a liberdade para os testemunhos."

O ancião interrompe os chamamentos que retornam mal ele termina de falar.
Seguem-se, então, os "Glória" e "Senhor" até que fiel se levante e vá até o microfone.
Vale lembrar que, tanto as expressões verbais, como todos os outros atos presentes no culto são efetuados como provenientes da atuação divina. É o que freqüentemente os fiéis manifestam (por meio de diferentes expressões) em seus discursos a respeito do ato de testemunhar:

"Não de mira mesmo, mas se Deus me der força e eu levantar ... "

Note-se, porem, que essa força divina recedida articula-se com o jogo de vozes que falam pelo falante real - no texto, o locutor que, continuando, diz:
"...eu quero levantar e levar a saudação... "

A aparente contradição ("não de mim"/"eu quero") se desfaz quando se considera que num mesmo discurso o sujeito se representa de várias maneiras. No caso presente, o “querer" marcado no locutor é o desejo divino pois nesse enunciado o locutor falada perspectiva de Deus, dando lugar, portanto, a um enunciador divíno. Dessa forma, em um primeiro momento, o sujeito se representa como ele mesmo ("não de mim!) em relação com a vontade de Deus.
Em um segundo momento, a vontade de Deus “é" a sua própria vontade (“eu quero"). Teríamos, pois, dois sujeitos (de mim/eu quero) o fato de a irmandade reconhecer nessas suas representa-se um único sujeito - o fiel ali presente - deve-se a que a sua pr~
sença é mediada pela representação ideológica que o locutor constrói e que é reconhecida pela irmandade.
Na teoria do discurso, o princípio que comanda a reunião das diferentes representações do sujeito em urna unidade é o chamado "principio de autoria". Essa unidade se dá, "pela função social que esse "eu" assume enquanto produtor da linguagem" autor - no interior de uma formação discursiva (cf. Orlandi e Guimaraes, 1985).
Assim, de acordo com o principio de autoria, podemos observar que o "eu" que fala nesse discurso que estamos analisando – o fiel/locutor -, embora seja um enunciador mundano, fala de uma perspectiva divina, representando outro enunciador - Deus.
Portanto, a função social de autoria responsável pelo efeito de unidade do sujeito, se dá, Desse caso, de acordo com as regras que regem a formação discursiva da CCB. Como sabemos, no interior dessa formação, é possível para o sujeito (mundano) assumir,
Através das situações de fala ritualizadas, o papel de enunciador divino.
Resta-nos acrescentar que, sendo o testemunho o ato mais importante para a confirmação do poder de Deus, há um acordo tácito
entre o "querer”do fiel (que é o desejo de Deus) e o desejo de toda irmandade, o que garante a eficácia do funcionamento desse discurso.
Outro aspecto interessante a propósito do testemunho é que a intenção de testemunhar, embora atribuída ã vontade de Deus, é regulada também pela presença do ancião. g ele quem adverte:

“......hoje teve bastante tempo para contar maravilha, ninguém ... , às vezes, a pessoa
que preparou algumas maravilhas~ certo? Poderia ter preparado mais ainda." (Bonfim, 13/01/81)

Observamos nessa citação que o verbo "preparar" indica que apenas teoricamente os testemunhos são provenientes da atuação divina. Na prática l eles devem ser trazidos prontos de casa.
Entretanto este fato não modifica o valor que lhe é atribuído no culto, muito menos se coloca em dúvida sua proveniência divina. Afinal, a função primordial do culto é justamente está investir atos corriqueiros de um caráter sobrenatural.
Estas duas faces do ato de “preparar" podem ter sua explicação no fato de que esse verbo é, em geral, utilizado com o agente divino – “o Senhor preparou", ”Deus preparou", etc – abrindose , pois, a possibilidade de que a carga semântica presente em "preparar" - como ato divino - se aplique também ao ato humano executado pela "pessoa que preparou algumas maravilhas”.
Testemunhar, portanto, é um ato livre na justa medida em que é considerado como permitido par Deus. Podemos observar isso na expressão seguinte, usada, em alguns cultos, pelo ancião em seqüência a expressão de abertura:

“Agora, meus irmãos, DEUS DÁ A LIBERDADE de testemunhar. Quem tem recebido maravilhas do Senhor vem neste momento para glorificar a Deus diante da congregação. U reiterando no final a permissão para os fiéis se expressarem:
"Estamos nesta SANTA LIBERDADE. Deus seja louvado!" (Jardim Carlos Gomes, 18/02/82)

ao que a irmandade responde: “Amém. "

A hora dos testemunhos, além de ser a hora do agradecimento pelos beneficios recebidos, é também o momento de tornar publico o pagamento dos votos ("promessas"), o que fica claro em algumas expressões de abertura desta parte do culto, como:
“ é para nós agradecer a Deus, pelas maravilhas recebidas das mãos santas do Senhor e
também pagar nossos votos diante de Deus.” (Bonfim, 13/01/81)

Pode ocorrer interferência do ancião, num parêntese a alguma parte do culto, para fazer uma admoestação aos fiéis. Nesta parte do culto, em uma oportunidade, correu este fato quando a irmandade, depois da abertura pelo ancião, respondeu o "Amém"
em intensidade que não o agradou. Imediatamente após os chamamentos que se seguem ao “Amém”

O ancião, em tom irritado e intensidade crescente, repreendeu os fiéis, dizendo:

"Pedi prá irmandade falá o “Amém” mais alto, bem mais alto r muito mais." (Bonfim, 13/01/81)

Outro tipo de interferência pode se dar quando não há pessoas dispostas a dar testemunho, como ocorreu em um outro culto no qual apenas um fiel se apresentou. Houve, após esse testemunho, um silêncio desolador. Como ninguém se dispusesse, o ancião tomou a palavra 8, num tom de irritação, mas de conselho, falou:

“O irmão e a irmã devem permanecer em santa comunhão na casa do Senhor, para. que o Senhor, na comunhão, possa visitar o coração, amados, e possa requerer de nos aquilo que por sua santa e divina vontade.”

"Por isso, estamos aqui para servir ao Senhor, para ‘tarmos’ em comunhão e não para estarmos distraídos ou desapercebidos na presença de Deus” (Bonfim, 13/06/81)

Imediatamente, um fiel se levanta, mas de seu testemunho só se ouvem as palavras iniciais:

"O nome de Deus seja eternamente louvado:" (Bonfim, 13/06/81)

seguindo inaudível até o final.

Como vemos, uma boa admoestação pode produzir efeitos surpreendentes, pois ainda mais dois fiéis foram “visitados” e dispusera-se a testemunhar.
Esse fato nos mostra que, além de animador e de ter o poder de deliberação r O ancião 'tem uma ascendência mui to grande sobre os fiéis, caracterizando-se, acima de tudo, como uma autoridade.. Autoridade de que ele necessita e que ele constrói incessantemente pelo domínio da palavra.
William R. Read, ao descrever o culto da CCB na "Igreja-Mãe", em são Paulo, na década de 1960, relata uma prática utilizada pelo ancião na hora dos testemunhos: "Os testemunhos devem ser edificantes, pois caso contrário, o ancião, que dirige o culto desligará simplesmente o microfone ou dirá à pessoa que ela está tomando Q tempo dos outros, sem uma participação edificante (op.dt.,p. 20).
Não presenciamos nenhuma ocorrência deste fato, mas essa informação ilustra bem a tradição controladora da autoridade máxima do culto.
Não há um número nem uma extensão fixada para os testemunhos, mas subjaz um acordo tácito quanto à quantidade e duração dos mesmos. Veremos também na análise dos testemunhos que, mesmo curtos, obedecem a uma estruturação, a que anteriormente nos referimos como sendo a ritualização dos discursos.
Entre o final dos testemunhos e a parte seguinte o ancião interfere com a expressão:“Glória a Deus”

e os fiéis o seguem: “Glória a Deus!", "Glória a Deus”...

Em um tempo de espera entre a certificação de que não há mais nenhum testemunho a ser apresentado e a parte seguinte. Marca-se, assim, como vemos, o caráter ativo do culto, pois mesmo, nesse momento de espera, que seria uma pausa nas manifestações, estas aparecem para preencher o silêncio.
Finalmente, encerram-se os testemunhos com a chamada de outro hino.

Ancião: “Chamemos outro hino”

Um dos fiéis procede da maneira já descrita, dizendo em voz alta o número do hino.
Uma vez entoado, voltam os chamamentos a divindade e está próxima a parte central do culto.


2.5. Avisos e recebimento da palavra, leitura da Bíblia e discurso do ancião

Estes quatro itens, nessa ordem, compõem uma única parte do culto. Em todos eles o ancião e o protagonista principal. Deste ponto até o final,a palavra fica, quase que exclusivamente,sob o seu poder.

AVISOS

Este item da parte central do culto t quando presente precede a Leitura da Bíblia, que por sua vez vem sempre ligada ao discurso do ancião.
Os avisos servem para colocar os fiéis a par dos projetos de sua irmandade, para convocar os fiéis para algum trabalho, relacionar os lugares onde haverá batismo (incluídos até aqueles a serem efetuados em outros estados), para pedir orações pelos servos que estão em viagem de evangelização (para efetuarem batismo ou para visit.arem as outras irmandades - na santa
obra de Deus"), para convocar reuniões (como a Assembléia Geral, em que se faz o balanço das coletas e se estabelece a sua aplicação:

"Por lei temos obrigação de convidar", segundo o ancião

Podem servir ainda tanto para comunicar viagens de irmãos, que por esse motivo estão ausentes, como para convidar os fiéis interessados em aprender a tocar algum instrumento, ou mesmo para solicitar orações aos que já estão aprendendo. Em alguns cultos nao consta a parte de Avisos, passando-se
diretamente dos testemunhos ao Recebimento da Palavra.


RECEBIMENTO DA PALAVRA E LETURA DA BÍBLIA

O ancião, que vinha presidindo o culto até esse momento,pode ceder seu lugar a uma das pessoas sentadas na fila da frente (cooperador ou diácono da congregação local ou visitantes e/ou anciãos visitantes). Nem sempre essas pessoas estão presentes e, quando estão, somente tomarão a palavra "se forem visitadas pelo Espírito Santo", guia que conduzirá a escolha da leitura.
Quando não há mudança de ancião, abre-se esta parte,anunciando-
se:
"E o Senhor nos mandará a Sua Palavra. Deus seja louvado."
Irmandade:
“Amém. "

ao que pode seguir-se uma conclamação às glorificações e chamamentos a divindade, Como ocorreu, em seqüência, neste culto:

“Querida irmandade, clamam a Deus que a Palavra é de Deus é revelada pelo Espírito Santo e nós devemos clamar a Deus para que o Senhor nos revele a Palavra.”

"Queria avisar a toda querida irmandade, as irmãs e aos irmãos, as necessidades que estão aqui, aqui nós ternos que deixar. Nós nâo sabemos, mas o Senhor é aquele que pode nos revelar as virtudes do Espírito Santo”

"Glória, Senhor”

Irmandade {em manifestações individuais}:

"Glória”, "Glória, Senhor~", "Senhor"

Ancião: "Aleluia~ "

Irmandade: "Glória:", “Glória a Deus”

Ancião: "Deus seja louvado"

Irmandade (em uníssono): "Amém" (Bonfim, 13/01/81)

Se houver a mudança de ancião, aquele que vinha dirigindo o culto faz também a abertura desta parte, como no caso:

"Agora continuaremos em santa comunhão, o Senhor enviará do céu a Sua santa e gloriosa Palavra. Deus seja louvado:" (Bonfim, 13/06/81).

e os fiéis respondem: "Amém"
Seguindo-se, então, as glorificações de praxe.
O novo ancião toma o seu lugar, apresenta as "saudações na Paz de Deus" de sua congregação de origem, entabulando, assim, o diálogo com a irmandade r que lhe responde: "Amém". Em seguida, anuncia a leitura que será feita e que já fora "recebida" por ele durante as glorificações.
Em qualquer dos casos, a irmandade permanece num burburinho de "glórias" cada vez mais intenso, enquanto aguarda o recebimento da "Palavra de Deus” pelo ancião. Também nessa espera, como vemos, não se faz silêncio.
Esse recebimento é melhor observado quando não há mudança de ancião. De pé e sempre de frente para o público, depois de estar folheando a Bíblia por alguns instantes, em determinado momento dirige-se aos fiéis por meio de expressões semelhantes a esta:

“o Senhor manda sua Santa Palavra, então vamos ler, irmãos. são João. Evangelho de são João. CapituloVII do Evangelho de São João."

E especifica a leitura a ser feita, como no exemplo:

"Vamos ler, irmãos, o verso 10 até aonde O Senhor nos guiar. Sete, Capitulo VII, verso 10 em diante." (Parque Industrial, 14/01/81).

Há consenso quanto ao recebimento da indicação divina, mas o ancião pode reafirmá-la:

"A Palavra de Deus, irmãos, fica pronta na mesma hora, chamamos Ele e Ele traz a Palavra, necessidade da igreja, nós não temos nada preparado, durante a leitura Deus traz na hora.”

"Vamos ler com a ajuda de Deus e a guia de Seu Santo Espírito." (Jardim Carlos Gomes, 18/02/82)

Para marcar o final da Leitura, que é feita pelo próprio ancião, este faz uma modulação de voz adequada (diminuição da velocidade da fala e ênfase simultânea às últimas palavras), a qual a irmandade responde: “Amém”.


DISCURSO DO ANCIÃO

Feita a leitura, o ancião introduz seu discurso. Até que ele comece, os momentos vazios são preenchidos com chamamentos e glorificações, agora mais esparsos.
A direta inspiração de Deus sobre o pregador na hora de sua pregação dispensa o manuscrito previamente preparado. Este fato e as crenças que o fundamentam "talvez remontem ã origem do Separatismo e do primeiro Grande Despertar (Great Awakening) em New England dos anos 1740" (Titon e George, 1978, p. 10) o ancião inicia o seu discurso e durante toda a pregação
há respostas das fiéis. Conforme a temática e as modulações de voz do ancião, os fiéis têm reações que vão desde os chamamentos à divindade ("Senhor Senhor") até êxtases de lamentações, marcadas pela altura, pela inflexão de voz e às vezes até pelo pranto.
Em determinado estágio do discurso, o ancião acentua os a pelos de maior efeito, carregando nas entoações e na intensidade da voz, e Os fiéis compreendem que é chegado o momento final. Um ruído intenso de vozes toma conta do templo. Tudo parece vibrar junto.
Somente o branco relógio redondo (quando presente), instalado lado estrategicamente no alto, às costas do público e de frente para o ancião, permanece impassível o ancião termina seu discurso, dizendo:

“Deus seja louvado!”

e os fiéis: “Amém."


2.6. Agradecimento final

Sem interrupção, o ancião acrescenta: "Vamos agradecer a Deus!"
e os fiéis: "Amém”


As pessoas se entregam totalmente aos chamamentos e glorificação da divindade até que um dos fiéis se projeta e faz o agradecimento final. Seu término é marcado pela menor velocidade da fala na pronúncia das últimas palavras, a que a irmandade responde: “Amém".

Em algumas ocasiões o ancião encerra seu discurso anunciando a parte seguinte; isto e, o Agradecimento Final:

"Esta é a Palavra que o Senhor manda, irmãos, para nós.MAIS ALGUMA COISA O SENHOR DARÁ AO SEU SERVO. Deus seja louvado” (Jardim são Vicente, 23/02/82)

seguindo-se, então, o procedimento j á descri to ..

Terminado o agradecimento, o ancião convida para um novo hino:

"Cantemos um hino."

Um fiel escolhe o hino, conforme o procedimento de escolha do hino.


2.7. Saudação final e "ósculo santo"
.
Após O hino, o ancião repete a saudação: "Louvado seja Deus ~ u
a que os fiéis respondem: “amém”

Todos se movimentam e saúdam-se com o "ósculo santo", beijando-se somente pessoas batizadas e do mesmo sexo, agora dirigindo-se, novamente em grupos, para os locais de origem.
Daremos, no final deste trabalho, um tratamento analítico mais direto ao caráter ativo deste culto, fato marcado, como temos observado, pela atividade verbal incessante dos seus participantes.

Em suma, para termos uma visão do culto como um todo, retomemos através do esquema abaixo, como se dá a estruturação de suas partes:

1. SAUDAÇÃO
2. CHAMADA DO HINO
3 MOMENTO DA ORAÇÃO
4. TESTEMUNHOS
5. AVISOS, RECEBIMENTO DA PALAVRA, LEITURA DA BL1BIA E DISCURSO DO ANCIÃO
6. AGRADECIMENTO FINAL
7. SAUDAÇÃO FINAL E "6SCULO SANTO

“As partes grifadas no esquema, isto e, os testemunhos (discurso dos fiéis em testemunho) e o discurso do ancião serão os próximos passos de nossa análise, em que buscaremos determinar estrutura ritualizada desses discursos.



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